Esse diminuto livrinho foi sendo composto por São Inácio passo a passo. É fruto de sua experiência. São práticas, e teoria para uma prática, são pautas para se exercitar. Inácio quer que, como ele o fez, cada um pare para pensar, medite, peça luz a Deus e enfrente-se com as grandes questões: Deus e eu. Pio XI qualificou-o como código sapientíssimo e universal para dirigir almas, e alguém escreveu que realizou mais conversões do que as letras que contém.
No livro não existe retórica nem beleza literária que nos deslumbre, mas um corpo de doutrina e acima de tudo, normas e um experimentadíssimo mestre de introspecção, grande conhecedor das marés interiores do espírito, dos apelos da graça e das maneiras sutis de resistência que o homem possui.
É um caminho para tentar despojar-nos dos condicionamentos de nossa liberdade, de pôr-nos em estado de indiferença, acima das solicitações mundanas e de nossos próprios impulsos para situar-nos diante de Deus, como razão de ser e horizonte de nossa vida, e diante dele, em estado de indiferença, de busca e de entrega generosa. O homem diante de Deus tem de escolher, determinar-se, decidir: e isto vale para os momentos graves e decisivos da vida ou para decisões de pouca importância. À sua luz, muitos viram-se renascer, ser homens novos.
O livro foi editado sem nome de autor. Por que? Porque o importante era o conteúdo. É a grande herança de Inácio de Loyola. Pelos exercícios, ele continua hoje presente e em vigor em todos os recantos do mundo.
Os exercícios têm que ser feitos com a orientação de uma pessoa autorizada e com um acompanhante “espiritualmente” experimentado.
O esquema dos exercícios é o seguinte:
Com o Principio e Fundamento, supõe-se que já surja uma primeira e firme resolução: tirar de si tudo o que for impedimento para abraçar a vontade de Deus na própria vida. É necessário consequentemente tomar consciência de toda a desordem existente e de suas trágicas consequências, para que o abandono à misericórdia e à graça de Deus torne possível uma vida nova, de acordo com a vontade de Deus. É o trabalho da Primeira Semana. Na Segunda Semana o exercitante contempla a vida de Cristo. Este tempo de discernimento culmina com o processo de Eleição e a tomada de uma decisão de vida. A Terceira Semana tem como finalidade confirmar a opção feita, confrontando a nossa pequenez com o amor sem limites que Cristo manifestou através da instituição da Eucaristia e dos sofrimentos de sua Paixão. A Quarta Semana reforça ainda mais esta opção feita, mediante a alegria, a paz e a felicidade da Ressurreição, Ascensão e Pentecostes. Os exercícios terminam com a contemplação para alcançar o Amor. Esse é o início de uma vida nova.
Princípio e Fundamento (EE 23)
O homem é criado para louvar, reverenciar e servir a Deus Nosso Senhor, e assim salvar a sua alma. E as outras coisas sobre a face da terra são criadas para o homem, para que o ajudem a alcançar o fim para que é criado. Donde se segue que há de usar delas tanto quanto o ajudem a atingir o seu fim, e há de privar-se delas tanto quanto dele o afastem. Pelo que é necessário tornar-nos indiferentes a respeito de todas as coisas criadas em tudo aquilo que depende da escolha do nosso livre-arbítrio, e não lhe é proibido. De tal maneira que, de nossa parte, não queiramos mais saúde que doença, riqueza que pobreza, honra que desonra, vida longa que breve, e assim por diante em tudo o mais, desejando e escolhendo apenas o que mais nos conduz ao fim para que somos criado.
Santo Inácio não cita o amor como finalidade da criação porque o amor consiste em obras e está implícito no louvor, na reverência e principalmente no serviço. Louvando estamos amando, reverenciando Jesus, que é nosso Rei e Senhor estamos amando e servindo estamos amando. Louvando, reverenciando e servindo vivemos o amor em todas as nossas ações.
“Louvar, reverenciar, servir” - É o resultado de se sentir criatura amada por Deus. Pôr sua vida na linha de realização do “sonho” de Deus: que todos nos amemos uns aos outros.
“Salvar sua alma” – encontrar seu sentido último na experiência pessoal de abandono total em Deus que o criou amorosamente.
“Outras coisas” – Abrange dons, saúde, educação, alimentos, emprego, imagem de si, dinheiro, práticas de igreja, casa, esforços apostólicos, tamanho da família, etc. Aqui também falamos de riqueza, honra e prazer. Tudo isso é bom, mas é essencial que nosso objetivo com relação a todas as coisas seja utilizá-las para alcançar o fim para que somos criados. Elas são meios e não fim. Atualmente, com um simples olhar ao nosso redor podemos constatar que a humanidade considera muitas vezes riqueza, honra e prazeres como meta e as conseqüências são devastadoras.
“Tanto quanto” – Devemos usar tudo na medida certa. Isso supõe o discernimento e Santo Inácio era o mestre do discernimento e nos deixa critérios para discernir o caminho a seguir em tudo. Não somente na oração, ou nas grandes decisões, mas em todas as ocasiões de nossas vidas.
As coisas podem perder sua relação com o louvor de Deus e daí o meu relacionamento com elas pode ficar desordenado. Serão mais uma dificuldade que uma ajuda, tornando-se ídolos ou instrumentos do meu orgulho. Preso, por exemplo, a status e segurança vai-me impedir de escolher algo mais arriscado e humilde.
“Indiferentes” – desapegado, livre de, equilibrado em relação às influências que possam interferir em minhas escolhas, aberto às diferentes possibilidades da situação concreta onde a graça possa atuar. Depende muito da experiência de sentir-se amado por Deus
Discernimento Espiritual
O discernimento é o elemento-chave da espiritualidade cristã desde a sua origem; gira justamente em torno da descoberta concreta da palavra de Deus, que chama efetivamente alguém a viver o amor aqui e agora. O discernimento espiritual capacita a pessoa a ver, escolher e executar a “vontade de Deus” a todo momento.
O objeto imediato do discernimento espiritual são as moções ou movimentos interiores.
A consolação faz a alma se inflamar, aumenta a esperança, a fé e a caridade e a toda alegria interior que eleva e atrai a alma para as coisas celestiais e para sua salvação (EE 316).
A desolação é o contrário, causa perturbação, inquietação proveniente de várias agitações e tentações que levam à falta de fé, de esperança e amor (EE 317).
Como é a ação do bom e do mau espírito nas pessoas que vão de pecado mortal em pecado mortal, e nas que vão se purificando? (EE 314-315):
Nas que vão de pecado mortal em pecado mortal, o mau espírito propõe prazeres aparentes, faz com que imaginem deleites... Nas que vão se purificando causa tristeza e remorsos, levanta obstáculos.
Nas que vão de pecado mortal em pecado mortal, o bom espírito remorde-lhes a consciência... Nas que vão se purificando dá coragem, forças, consolações e lágrimas.
No tempo de desolação não se deve fazer mudança alguma, mas permanecer firme nos propósitos e determinações em que se estava no dia anterior a esta desolação ou nas resoluções tomadas antes, no tempo de consolação. Devemos, ao contrário, insistir mais na oração, na meditação, em examinar-se muito e fazer alguma penitência conveniente (EE 318-319).
Quando estamos em consolação devemos prever como nos portar no tempo de desolação e quando estamos em desolação devemos nos manter pacientes e pensar que bem depressa seremos consolados novamente (EE 323, EE 321).
A contemplação
O objetivo da contemplação é o conhecimento mais profundo de Jesus Cristo para amá-lo mais intensamente e segui-lo mais de perto.
A contemplação inaciana não é um pequeno jogo de imaginação, mas a presença pela fé a um acontecimento passado para deixar que a Palavra de Deus nos penetre e transforme. Por isso é que se deve olhar demoradamente.
A contemplação é dividida em 3 pontos:
Observar as pessoas, ouvir o que elas dizem e considerar o que fazem – e deixar que o Espírito Santo comunique as moções interiores.
E finalizada com um colóquio, com a função de focalizar a graça recebida conforme as moções pessoais do Espírito experimentadas pelo exercitante. “Conforme a luz que recebi, pedirei a graça de seguir e imitar mais de perto a nosso Senhor” (EE109)
O Colóquio pode ser feito no decorrer da contemplação. E é desejável que seja feito.
Outros Modos de Orar
1º. – Refletir sobre os 10 mandamentos, os sete pecados capitais, os cinco sentidos corporais – examinar que mandamentos observei e que mandamentos transgredi; em que pecados capitais costumo cair e quais virtudes pratico; como utilizo os cinco sentidos.
2º. – Contemplar o sentido de cada palavra de uma oração
3º. – Orar mentalmente por compasso – a cada respiração uma palavra do Pai-Nosso ou de qualquer outra oração. Durante o tempo decorrido entre duas respirações pensar no significado da palavra ou da pessoa a quem a oração se dirige ou na diferença entre tanta grandeza de um lado e tanta baixeza de outro.
Oração de Santo Inácio de Loyola (EE 234)
“Tomai, Senhor, e recebei toda a minha liberdade, a minha memória, a minha inteligência e toda a minha vontade, tudo o que tenho e tudo o que possuo. Vós mo destes; a Vós, Senhor, o restituo. Tudo é vosso; de tudo disponde segundo a vossa vontade. Dai-me o vosso amor e a vossa graça, que isso me basta.”
O que é liberdade espiritual?
Cada um de nós é chamado a ser plenamente humano, e isto é santidade. Quanto mais puramente humanos, mais santos. A plenitude do humano dá-se no amor real, marcado pelo encontro fraterno por causa de Jesus. O pecado ocorre quando, no encontro, não existe fraternidade, mas dominação, relação de senhor e servo. Para amar, a condição fundamental é ocupar o espaço de liberdade (talento) que cada um recebeu, e para o que Deus dá sempre a graça suficiente.
Para ocupar, na totalidade, o espaço de liberdade viável do meu amor, somos chamados a superar a liberdade de realizar os possíveis de nossa existência (que são inúmeros e constantemente ampliados) e caminhar rumo à liberdade para escolher dentre os possíveis da vida todos e só aqueles que realizam minha finalidade. Esta disponibilidade total na liberdade, Santo Inácio denomina INDIFERENÇA (=LIBERDADE ESPIRITUAL)
Tempo de oração
- Manter um horário fixo, diário, num tempo mínimo de vinte minutos (Cada um deve examinar qual o momento do dia favorece mais o tempo de oração)
- Preparar a oração na noite anterior
- Verificar o melhor lugar (procurar um local calmo) e a melhor posição (não fazer a oração deitado).
- Diminuir o som do telefone, pode ajudar uma vela, colocar uma música suave, um quadro de Jesus ou um crucifixo
Revisão da oração
- É um instrumento para ajudar-me a refletir sobre a experiência da oração, perceber a ação de Deus em mim.
- Feita nos cinco minutos ao final do exercício, por escrito.
- Não é descrição passo a passo do que aconteceu na oração, mas o registro do “que aconteceu durante e ao final da oração”. Não que idéias, conhecimentos novos tive, como compreendi o texto, mas a percepção e o registro das moções principais, “o que sinto/senti a respeito do que me ocorreu na oração”? – Não é o muito saber que sacia e satisfaz a alma, mas o sentir e saborear as coisas internamente (EE2)
- Que sentimento predominante percebi em mim no final da oração?
- Eu creio que a graça pedida no início esteja sendo dada?
- Fui fiel ao tempo estabelecido?
- Que palavra, imagem foi mais marcante?
- Qual foi o momento que mais me impressionou ou no qual não consegui penetrar? Como me senti?
- Experimentei consolações espirituais? Quando surgiram estes sentimentos? Houve algum apelo, impulso?
- Experimentei desolações espirituais? Quando surgiram estes sentimentos? Houve alguma resistência?
(Compilado por Amanda Espósito)